Por Ana Guerra | 20/01/2020
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OPINIÃO: DIÁRIO SECRETO DE UMA SECRETÁRIA BILÍNGUE

POR: ANA GUERRA

Tenho até vergonha de admitir, mas até o último final de semana, não lembrava a última vez que tinha ido ao teatro. Costumo acompanhar espetáculos de dança, minha paixão antiga, mas peças de teatro se tornaram raras na minha agenda. Iniciei 2020 decidida a mudar essa realidade, e por sorte o destino me deu uma mãozinha:  através do gentil convite da assessora de imprensa do Instituto Ling, Jéssica Barcellos, fui conferir o monólogo "Diário Secreto de Uma Secretária Bilíngue", que faz parte da programação do Porto Verão Alegre.

Este é a 21ª edição do festival que leva espetáculos a todos os cantos da capital gaúcha - e neste ano também a algumas cidades do interior, como Farroupilha e Santa Cruz do Sul. Foi então que, com muita alegria, embarquei nesta viagem teatral, guiada pela capitã Deborah Finocchiaro, uma veterana nos palcos e uma das grandes feras da cultura brasileira. Fiquei super feliz ao chegar a um teatro com lotação esgotada e com a presença ilustre do Luciano Alabarse, Secretário Municipal da Cultura.

A peça conta a história de Marjorie, uma secretária cinquentona que há 20 anos trabalha numa empresa familiar de canos e conexões.  Ela vive a maçante rotina casa-trabalho-casa, vive com a mãe, não tem vida social e vê os anos passando pela janela do ônibus lotado que pega diariamente. Seu hobby é escrever em um diário secreto, que ela chama de "ficção biográfica". Em seu caderno íntimo, expõe não a vida que tem, e sim a vida que almeja e que não conseguiu concretizar.

Com o público, ela divide seus medos e frustrações. Arranca risadas com suas lamentações sobre a menopausa e com suas cantorias em italiano, mas faz pensar quando se sente sozinha e sem valor, principalmente quando descobre que perderá o emprego para uma garota 20 anos mais jovem.  Seus dias se repetem, quase sem alterações, emoções e boas notícias. Ela vive no piloto automático, colocando seus sonhos numa gavetinha, que ela mantém trancada a sete chaves. 

O texto da peça, embora acessível, é profundo e com várias camadas. Fala de vida, morte, medo, solidão, ambições, amor e a falta dele. Marjorie é falível, sincera e lindamente humana. E com a performance de Finocchiaro, ela ganha ainda mais brilho. Vida longa à incansável Deborah, que empresta seu talento a outro espetáculo do Porto Verão Alegre, "Pois é, Vizinha", que é encenado há mais de 25 anos! Mais informações no site oficial do Porto Verão Alegre.